segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

The Road Not Taken, by Robert Frost

The Road Not Taken é o poema mais famoso do grande poeta norte-americano Robert Frost (1874 – 1963), que fala sobre as escolhas que fazemos e como elas poderão repercutir em nossas vidas. Conheci este poema através de um cartoon do sensacional Blog Zen Pencils, que você pode ver aqui. 







The Road Not Taken, by Robert Frost
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim
Because it was grassy and wanted wear,
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I,
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.


A Estrada Não Trilhada
Duas estradas divergiam em uma floresta no outono,
E infelizmente não poderia trilhar ambas.
E sendo apenas um viajante, por um tempo me detive
E olhei por uma delas abaixo o mais distante que pude
Por onde ela dobrava entre os arbustos;

Então tomei a outra, pois dava no mesmo,
E talvez tendo ela algum um atrativo melhor
Pois era mais verde e queria ser trilhada,
Embora aquele que tivesse passado por lá
A tivesse marcado da mesma forma,

E ambas naquela manhã estavam igualmente cobertas
De folhas que nenhum passo marcara.
Oh, me mantive na primeira no outro dia!
E mesmo sabendo como um caminho leva a outro
Duvidei se algum dia eu deveria voltar.

Eu deveria dizer isto com um suspiro
Em algum lugar muito, muito tempo desde então:
Duas estradas divergiam em uma floresta, e eu,
Segui pela menos trilhada,
E isto fez toda a diferença.



Neste vídeo do professor Kevin Murphy, do Ithaca College, temos uma aula sobre a vida e a obra do poeta Robert Frost, e uma interpretação diferente para seu famoso poema.




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Californication

Californication é uma série de televisão do canal Showtime estrelada por David Duchovny (o Agente Fox Mulder da cultuada série Arquivo X), que interpreta Hank Moody, um escritor mulherengo que sofre com um persistente bloqueio criativo após a separação de sua mulher, Karen (Natascha McElhone), e uma malfadada adaptação de seu romance best-seller e sucesso de crítica God Hates Us All, que é transformado em uma comédia romântica. São capítulos de curta duração (apenas vinte e oito minutos) que seguem uma estrutura fixa em três fases, começando com sexo, drogas e Rock and Rolll, passando para a comédia e terminando em drama. A série é um sucesso de crítica e ganhou dois Prêmios Emmy e um Globo de Ouro para David Duchovny como melhor ator no ano de 2008.

Hank Moody é o estereótipo do sonho masculino de ser o cara irresistível para as mulheres e vai para a cama com praticamente com todas que aparecem na série, mas não consegue conquistar a única que realmente deseja, que é sua ex-esposa Karen, com que tem uma filha adolescente, Becca (Madeleine Martin). Seu outro problema é o bloqueio criativo, que vem o impedindo de escrever há muito tempo e que está deixando louco seu agente literário e melhor amigo, Charlie Runkle (Evan Handler), personagem que protagoniza as cenas mais hilárias de toda a série e que é casado com Marcy (Pamela Adlon).

No primeiro arco da série, Hank Moody é seduzido e vai para a cama com a bela jovem Mia Lewis (Madeline Zima) que mais tarde ele descobre ser uma adolescente de dezesseis anos. Para piorar ele descobre que ela é a filha de seu rival Bill Lewis (Damian Young), um homem maduro, bem sucedido e de personalidade correta, que é o seu oposto e está de casamento marcado com Karen. Este caso terá graves repercussões para a vida de Hank no decorrer da série. Acompanhamos também sua luta para ser um bom pai para sua filha adolescente que começa seus anos de revolta e despertar sexual.

Apesar da putaria e do uso indiscriminado de drogas pelos personagens (incluindo adolescentes!), gosto muito da série e não acho que ela seja uma pornografia sem sentido e inversão dos valores como muitos acham. Há uma insatisfação com a vida conjugal e um desprezo pela vida regrada, com os personagens sempre em busca da liberdade através do sexo sem compromisso e o uso de drogas. Mas em Californication esses atos quase sempre tem consequências graves e a tão sonhada liberdade cobra sempre seu alto preço, e invariavelmente, eles sempre retornam enfraquecidos ao ponto de partida. Fica a lição de que na maioria das vezes a verdadeira felicidade é estar junto daqueles que realmente nos amam, e de que isto não é uma prisão.


Infelizmente a sétima temporada, que irá ao ar nos Estados Unidos em abril de 2014, será a última. Aqui no Brasil você encontra à venda as primeiras cinco temporadas e a série pode ser vista no canal I.Sat e chegou a passar também no SBT.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Sandman – Vidas Breves

No sétimo volume da série, Sandman - Vidas Breves (Conrad, 2007), escrito por Neil Gaiman e desenhado por Jill Thompson, somos apresentados à irmã mais nova de Morpheus, Delírio, que procura vários de seus irmãos perpétuos a fim de ajudá-la a encontrar seu irmão favorito, Destruição, que não é visto há mais de 300 anos. Um relutante Morpheus decide acompanhar Delírio e no caminho encontramos deuses esquecidos e os antigos, humanos imortais que estão vivos desde a aurora dos tempos e que começam a morrer de forma misteriosa em acidentes inexplicáveis durante a busca.

Uma coisa legal deste volume é que conhecemos mais os perpétuos, que têm um mais papel central na história, destaque para os diálogos loucos de Delírio e o sempre não confiável Desejo. Muito bom também é o cachorro falante de Destruição, Barnabé, com seu humor negro e frases cáusticas.

Mas o personagem que mais me fascinou nesta história foi Desespero, cujo reino é uma constante tarde nublada e gélida com névoa cobrindo todo o solo infestado de ratos, com milhares de janelas mostrando cenas desesperadoras em todo o universo. Veja a narração de Desespero para Delírio de uma cena repugnante vista de uma das janelas:

(Delírio) – Quem é esse?
(Desespero) – Gerente de supermercado no Nebraska. Ontem sua esposa descobriu uma coleção de fotos pornográficas na garagem. A maioria mostrava criancinhas envolvidas em vários atos sexuais com adultos. Ela reconheceu o marido e a sobrinha de 5 anos. A mulher foi embora e levou as fotos. Ele teme que já estejam com a polícia. Agora, ele está na sala de estar. Sabe que sua vida terminou e se pergunta se tem coragem para acabar de vez com ela. Não tem. Não é lindo?
(Delírio) – É legal. Acho. Pra quem curte essas coisas.




Neste volume também acontece o encontro final entre Morpheus e a cabeça de seu filho Orfeu, que terá sérias repercussões no fim da série. Termino mostrando abaixo como seria minha visão de uma das janelas do reino de desespero, que pra mim seria uma televisão ligada em uma tarde de sábado ou domingo no Brasil.


É ou não é desesperador?



segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Toda água da Terra

Esta interessante imagem retirada do site do U.S. Geological Survey (USGS) mostra três esferas azuis que representam toda água do planeta Terra:



1) A Terra tem 12.756,2 Km na linha do equador;
2) A esfera maior tem cerca de 1.400 Km e representa toda água do planeta, presente nos mares, geleiras, lagos, rios, pântanos, subterrânea e em forma de vapor no ar;
3) A esfera bem menor à direita tem cerca de 270 Km de diâmetro e representa toda água doce do planeta, incluindo aí as geleiras, lagos, rios, pântanos e a água subterrânea, sendo que a maior parte desta está inacessível devido à profundidade em que se encontra;
4) A esfera menor logo abaixo tem apenas 64 Km e representa toda água na superfície, presente nos lagos, rios e pântanos, está sim disponível para a humanidade, incluindo aí uma boa parte daquela que poluímos e tornamos imprópria para o uso.

Uma das coisas que mais me irritam em filmes de ficção científica são aqueles alienígenas hostis que invadem a Terra em busca de água. A água é uma molécula bem comum no universo e no sistema solar existem vários locais com mais água que a Terra, como por exemplo a lua Europa, de Júpiter, e a Lua Titã, de Saturno, sem contar outras luas e os bilhões detritos espalhados por todo o Sistema Solar Exterior e Nuvem de Oort.




Mas infelizmente toda esta água ainda está indisponível para a humanidade, então, toda vez que você for lavar a louça com a torneira aberta, lavar o carro com uma mangueira ou tomar aquele banho de mais de meia hora, veja a imagem do início e reflita bem sobre o planeta que deixaremos para os nossos descendentes

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Pálido ponto azul

Um dos vídeos mais famosos da internet é o vídeo Nós estamos aqui: O Pálido ponto azul, que é uma montagem de fotografias, cenas de diversos filmes e a leitura de alguns trechos de Você está aqui, primeiro capítulo do fantástico livro Pálido Ponto Azul (Companhia das Letras, 1996), do cientista e divulgador da ciência Carl Sagan. Neste capítulo do livro, Sagan fala um pouco dos bastidores da NASA durante os preparativos para a série de 60 fotografias que a sonda espacial Voyager 1 tirou dos planetas do sistema solar a distância de cerca de 6 bilhões de quilômetros da terra, que ficou conhecida como “Foto de Família”. Falecido em 1996, ele é o autor dos livros de divulgação científica O Mundo Assombrado Pelos Demônios, Os Dragões do Éden, O Romance da Ciência, Bilhões e Bilhões, Cosmos, Pálido Ponto Azul, Cérebro de Broca, Variedades da Experiência Científica, do romance de ficção científica Contato, que virou o filme de mesmo nome estrelando Jodie Foster, e do sensacional documentário Cosmos

Terra vista da órbita de Saturno pela sonda Cassini
No belíssimo vídeo, temos uma lição de humildade para todos os seres humanos sobre nosso verdadeiro lugar no universo e como nossas preocupações parecem pequenas sob a perspectiva cósmica. Sempre me entristeceu muito olhar para um planisfério ou para um globo terrestre, com as divisões políticas em países formando uma colcha de retalhos coloridos sobre os continentes do planeta, e que parece tão sem sentido quando observamos uma fotografia da terra vista do espaço. Estas divisões parecem ainda mais absurdas quando vemos uma fotografia da Terra a bilhões de quilômetros, de onde ela é apenas um pontinho azul que mal percebemos. Ver as coisas sobre esta perspectiva é cada vez mais importante nos dias de hoje, onde problemas ambientais ultrapassam as fronteiras e põem em risco o futuro da vida no planeta, incluindo todos os seres humanos, seja de que nação pertencerem.


Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “lideres supremos”, todos os santos e pecadores da história da nossa espécie, ali – num grão de poeira suspenso num raio de sol.



A viagem das sondas Voyager 1 e 2 foi um dos projetos mais ambiciosos e bem sucedidos da NASA, comparável ao pouso das naves Apolo na Lua e ao telescópio Espacial Hubble. Aproveitando-se de um raro alinhamento planetário, estas duas naves visitaram todos os planetas do sistema solar exterior, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e suas dezenas de luas, e enviam dados dos limites do Sistema Solar até hoje, mais de 30 anos após o lançamento. Segue abaixo o capítulo inteiro do livro, com a adição de algumas fotografias:

VOCÊ ESTA AQUI

A Terra inteira é somente um ponto, e o lugar de nossa habitação, apenas um canto minúsculo desse ponto.
MARCO AURÉLIO, IMPERADOR ROMANO, MEDITAÇÕES, LIVRO 4 (170 d.c.)

Como os astrônomos são unânimes em explicar, o circuito de toda a Terra, que nos parece infinito comparado com a grandeza do Universo, assemelha-se a um ponto diminuto.
AMMIANUS MARCELLINUS (330-395 d.c.)
O ÚLTIMO GRANDE HISTORIADOR ROMANO EM A CRÔNICA DOS ACONTECIMENTOS.

A nave espacial estava muito distante de casa, além da órbita do planeta mais afastado e bem acima do plano da eclíptica – que é uma superfície plana imaginária que podemos visualizar como uma pista de corrida onde as órbitas dos planetas ficam principalmente confinadas. A nave afastava-se aceleradamente do Sol a 60 mil quilômetros por hora. Mas, no início de fevereiro de 1990, foi alcançada por uma mensagem urgente da Terra.
Obedientemente, redirecionou suas câmeras para os já distantes planetas. Girando sua plataforma de varredura de um ponto a outro no espaço, tirou sessenta fotografias e as armazenou sob forma digital em seu gravador. Depois, lentamente, em março, abril e maio, radiotransmitiu os dados pra a Terra. Cada imagem era composta de 640 mil elementos individuais (“pixels"), como os pontos em uma fotografia de jornal transmitida por telégrafo ou em uma pintura pontilhista. A nave espacial estava a 6 bilhões de quilômetros da Terra, tão distante que cada pixel levava cinco horas e meia, viajando à velocidade da luz, para chegar até nós. As fotos poderiam ter sido enviadas mais cedo, mas os grandes radiotelescópios na Califórnia, na Espanha e na Austrália, que recebem esses sussurros da orla do Sistema Solar, tinham responsabilidades para com outras naves que transitam pelo mar espacial – entre elas, Magellan, rumo a Vênus, e Galileo, em sua travessia tortuosa por Júpiter.
A Voyager 1 estava tão acima do plano da eclíptica porque, em 1981, passara muito perto de Titã, a lua gigantesca de Saturno. Sua nave irmã, a Voyager 2, fora enviada numa trajetória diferente dentro do plano da eclíptica e, por isso, pudera realizar as célebres explorações de Urano e Netuno. Os dois robôs Voyager exploraram quatro planetas e quase sessenta luas. São triunfos da engenharia humana e uma das glórias do programa espacial norte-americano. Ainda estarão nos livros de história, quando muitos outros dados sobre nossa época já tiveram caído no esquecimento.
O funcionamento das Voyager só estava garantido até o encontro com Saturno. Achei que seria uma boa idéia, logo depois de Saturno, que elas lançassem um último olha para casa. Eu sabia que, vista a partir de Saturno, a Terra pareceria demasiado pequena para que a Voyager distinguisse algum detalhe. O nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um pixel solitário, mal distinguível dos muitos outros pontos de luz que a Voyager podia divisar, planetas próximos e sóis distantes. Mas, justamente por causa da obscuridade de nosso mundo assim revelado, valeria a pena ter a fotografia.
Os marinheiros fizeram um levantamento meticuloso das costas litorâneas dos continentes. Os geógrafos traduziram essas descobertas em mapas e globos. Fotografias de pequenos fragmentos da Terra foram tiradas, primeiro por balões e aviões, depois por foguetes em vôos balísticos curtos e, finalmente, por naves espaciais em órbita – gerando uma perspectiva similar à que obtemos quando posicionamos o globo ocular uns três centímetros acima de uma grande esfera. Embora quase todo mundo aprenda que a Terra é um globo ao qual estamos, de certa forma, presos pela gravidade, a realidade de nossa circunstância só começou, de fato, a penetrar em nosso entendimento com a famosa fotografia Apollo 17 na última viagem de seres humanos à Lua.
Ela se tornou uma espécie de ícone da nossa era. Ali está a Antártida, que norte-americanos e europeus consideram a parte extrema da Terra, e toda a África estirando-se acima dela: vemos a Etiópia, a Tanzânia e o Quênia, onde viveram os primeiros seres humanos. No alto, à direita, estão a Arábia Saudita e o que os europeus chamam Oriente Médio. Mal e mal espiando no topo, está o mar Mediterrâneo, ao redor do qual surgiu uma parte tão grande de nossa civilização global. Podemos distinguir o azul do oceano, o amarelo-ocre do Saara e do deserto árabe, o castanho-esverdeado da floresta e dos prados.
Não há, entretanto, sinal de seres humanos na fotografia, nem de nosso reelaboração da superfície da Terra, nem de nossas máquinas, nem de nós mesmos: somos demasiado pequenos e nossa política é demasiado fraca para sermos vistos por uma nave espacial entre a Terra e a Lua. Desse ponto de observação, nossa obsessão com o nacionalismo não aparece em lugar algum. As fotografias Apollo da Terra inteira transmitiram às multidões algo bem conhecidos dos astrônomos: na escala de mundos – para não falar da escala de estrelas ou galáxias – os seres humanos são insignificantes, uma película fina de vida sobre um bloco obscuro e solitário de rocha e metal.
Parecia-me que outra fotografia da Terra, tirada de um ponto de centenas de milhares de vezes mais distantes, poderia ajudar no processo continuo de revelar-nos nossa verdadeira circunstância e condição. Os cientistas e filósofos da Antigüidade clássica tinham compreendido muito bem que a Terra era um simples ponto num vasto cosmo circundante, mas ninguém jamais a vira nessa condição. Era a nossa primeira oportunidade (e também a última em várias décadas).
Muitos membros do Projeto Voyage da NASA deram o seu apoio. Vista a partir da orla do Sistema Solar, porém, a Terra fica muito perto do Sol, como uma mariposa enfeitiçada ao voar ao redor de uma chama. Apontaríamos a câmera para tão perto do Sol, a ponto de correr o risco de queimar o sistema vidicon da nave espacial? Não seria melhor esperar ate que fossem obtidas todas as imagens cientificas de Urano e Netuno, se a nave espacial chegasse a durar tanto tempo?
E assim, esperamos – o que foi bom – de 1981, em Saturno, a 1986, em Urano, e a 1989, quando as duas naves espaciais já tinham passado das órbitas de Netuno e Plutão. Por fim, chegou a hora. Havia, porém, algumas calibrações instrumentais a serem feitas primeiro, e esperamos um pouco mais. Embora a nave espacial estivesse nos lugares certos, os instrumentos ainda funcionassem maravilhosamente, e não houvesse outras fotografias a serem tiradas, alguns membros do projeto se opuseram. Não era ciência, diziam. Descobrimos, então, que, numa NASA em dificuldades financeiras, os técnicos que projetavam e transmitiam os comandos de rádio para a Voyager estavam para ser dispensados imediatamente ou transferidos para outras tarefas. Se quiséssemos tirar a fotografia, tinha de ser naquele momento. No último minuto – na verdade, no meio do encontro da Voyager 2 com Netuno – o então administrador da NASA, contra-almirante Richard Truly, interveio e garantiu que as imagens fossem obtidas. Os cientistas espaciais Candy Hansen, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA (JPL), e Carolyn Porco, da Universidade do Arizona, projetaram a seqüência de comandos e calcularam os tempos de exposição da câmera.
Assim, aqui estão elas – um mosaico de quadrados dispostos sobre os planetas e uma coleção heterogênea de estrelas mais distantes ao fundo. Não só conseguimos fotografar a Terra, mas também outros cinco dos nove planetas conhecidos que giram em torno do Sol. No brilho deste, perdeu-se Mercúrio, o mais próximo. Marte e Plutão eram demasiado distantes. Urano e Netuno são tão indistintos que, para registrar a sua presença, foram necessárias longas exposições; conseqüentemente, devido ao movimento da nave espacial, suas imagens não ficaram nítidas. Essa seria a imagem eu os planetas ofereceriam a uma espaçonave alienígena que se aproximasse do Sistema Solar depois de uma longa viagem interestelar.


A partir dessa distância, os planetas parecem apenas pontos de luz, nítidos ou não – mesmo através do telescópio de alta resolução a bordo da Voyager. São como os planetas vistos a olho nu da superfície da Terra; pontos luminosos, mais brilhantes que a maioria das estrelas. Durante um período de meses, a Terra, como os outros planetas, pareceria mover-se entre as estrelas. Olhando simplesmente para um desses pontos, não se pode dizer como ele é, o que existe na sua superfície, qual foi seu passado e se, neste momento em particular, alguém vive ali.
Devido ao reflexo da luz do Sol na nave espacial, a Terra parece estar pousada num raio de luz, como se nosso pequeno mundo tivesse um significado especial. Mas é apenas um acidente de geometria e óptica. O Sol emite sua radiação eqüitativamente em todas as direções. Se a foto tivesse sido tirada um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde, nenhum raio de sol teria dado mais luz à Terra.
E por que essa cor cerúlea? O azul provém em parte do mar, em parte do céu. Embora transparente, a água em copo absorve um pouco mais de luz vermelha que de azul. Quando se tem dezenas de metros da substância ou mais, a luz vermelha é totalmente absorvida e o que se reflete no espaço é sobretudo o azul. Da mesma forma, o ar parece perfeitamente transparente num pequeno campo de visão. Ainda assim – algo que Leonardo da Vinci era mestre em pintar – quando mais distante o objeto, mas azul ele parece ser. Por quê? O ar dispersa muito melhora a luz azul do que a vermelha. O matiz azulado, portando, provém da atmosfera espessa, mas transparente, da Terra e de seus oceanos profundos e líquidos. E o branco? Em um dia normal, a Terra tem quase metade de sua superfície coberta por nuvens brancas de água.
Nós podemos explicar o azul-pálido desse pequeno mundo porque conhecemos muito bem. Se um cientista extraterrestre, recém chegado às imediações do nosso Sistema Solar, poderia fidedignamente inferir oceanos, nuvens e uma atmosfera espessa, já não é tão certo. Netuno, por exemplo, é azul, mas por razões inteiramente diferentes. Desse ponto de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial.
Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “lideres supremos”, todos os santos e pecadores da história da nossa espécie, ali – num grão de poeira suspenso num raio de sol.
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pesem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, em seus freqüentes conflitos, em sua ânsia de recíproca destruição, em seus ódios ardentes.
Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos uma posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Em nossa obscuridade, em meio a toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.
A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos no futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Goste-se ou não, no momento a Terra é o nosso posto.

Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o caráter e ensina humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para min, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.

Planetas Vênus, Terra e Marte vistos da órbita de Saturno pela sonda Cassini.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo

Antes de começar esta postagem gostaria de deixar registrada minha estranheza ao interessante fenômeno que é a tendência de muitas pessoas a considerar homossexual todos aqueles que ousam defender publicamente algum direito dos homossexuais.  É estranho como você pode sair em defesa das crianças sem ser chamado de bebê, defender os indígenas sem ser chamado de índio, ou mostrar seu repúdio à forma como se tratam os animais sem ser chamado de bicho, mas quando você fala sobre homossexualismo, sempre se escuta em algum momento: seu gay! Não sou homossexual, mas caso algum homofóbico leia esta postagem e quiser me chamar de gay nos comentários, tudo bem, sinta-se à vontade pois não me ofenderei, assim como espero que você também não se ofenda ao lhe informar que você é um doente mental (me perdoem por favor todos aqueles que sofrem de doenças, distúrbios e transtornos mentais pelo mau uso que faço aqui do termo, associando-o a um tipo tão desprezível de sujeito), pois não há outro termo que eu pense no momento para definir adequadamente uma pessoa que se incomode tanto com o que outras façam ou deixem de fazer com suas vidas privadas.

Vejo a homossexualidade como uma questão de preferências. Por exemplo, eu torço para o Flamengo e não torceria para o Vasco, Fluminense ou Botafogo, mas acho que todos tem o direito de torcer para o time de sua preferência, e que se todos torcessem para o mesmo time, o mundo seria uma merda. Dentro desta analogia, se alguém é vascaíno, tricolor ou botafoguense, não vejo nenhum motivo para espancar, humilhar, privar de algum direito ou tentar criar alguma lei no Congresso Nacional para considerar alguém doente. Todos tem o direito a ter o seu gosto ou mau gosto.

Na noite de 27 para 28 de novembro vi uma entrevista muito boa que o apresentador Jô Soares fez com a cantora Daniela Mercury, onde também apareceu a esposa desta, a jornalista Malu Verçosa. Para quem não sabe ou não se lembra, em 2011 os Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceram por unanimidade o direito à união estável entre pessoas do mesmo sexo com todos os direitos de um casamento, e em 2013 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou uma resolução obrigando todos os cartórios do país a realizarem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O casamento de Daniela Mercury, mais do que uma cerimônia, foi um marco e um símbolo da consolidação do direito de milhões de brasileiros, por se tratar de uma celebridade e de ter tido grande repercussão na mídia.

Apesar de ser uma conquista, o fato de ter sido uma imposição do Poder Judiciário, e não uma mudança na legislação de iniciativa do Poder Legislativo (que em teoria representa o interesse de todos os brasileiros através de integrantes eleitos pelo voto), é uma coisa muito triste. Muito pelo contrário, nadando na contramão da sociedade, parte do legislativo ainda escolhe um fanático religioso para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (não citarei o nome porque acho que ele já teve publicidade demais em outros meios e não darei mais esta ajuda, pois já saquei a estratégia: falem mal mas falem de mim pois a eleição está chegando e meu nome precisa estar em evidência pois muitos milhões concordam comigo!). Mas não seria de outra forma em um país onde o voto tem que ser obrigatório para que a população vá às urnas votar e onde o assunto seja um tabu tão forte.


Um dos argumentos mais utilizados por quem é contra a decisão, é que a legislação brasileira definiria como casal a união entre o homem e mulher. Bom, assim como o cavalo já foi a definição de meio de transporte rápido, o arco e flecha era uma arma eficiente e mortífera, o escravo era uma propriedade e a monarquia sinônimo de estado moderno, a definição de casal também deve mudar. Não dá mais para negar o fato que milhões pessoas mantém relacionamentos afetivos estáveis com outras do mesmo sexo, vivento sob um mesmo teto, dividindo as despesas, dormindo na mesma cama e muitas vezes até mesmo criando filhos. A definição de casal já mudou e se achamos estranho que ela abranja o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, imagine se as possibilidades que o futuro nos reserva com androides, inteligências artificiais, mutantes, melhoramentos genéticos, alienígenas, etc. se tornarem realidade! Mas até lá acredito que nossos descendentes serão bem mais sábios para tratarem do assunto, e a homofobia será apenas mais uma chaga vergonhosa na história humana, como foram a escravidão, a inquisição o holocausto e tantos outros absurdos.

Para ver a entrevista com Daniela Mercury no Programa do Jô, clique aqui.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O Bom Soldado

O Bom Soldado (Alfaguarra/Objetiva, 2009), escrito pelo britânico Ford Madox Ford é considerado um dos maiores clássicos da literatura do século XX. O livro é mais conhecido pela inovação do chamado “narrador não confiável”, onde a história é narrada em primeira pessoa por um dos personagens e este faz uma descrição dos outros personagens que vai mudando no decorrer dos capítulos, causando uma sensação de estranheza e curiosidade que vai prendendo a atenção do leitor.

Na história conhecemos o narrador John Dowell e sua esposa Florence, americanos ricos que fazem uma viagem à França, onde conhecem o ex-Capitão do Exército Britânico  Edward Ashburnham (o bom soldado do título) e sua esposa Leonora, um perfeito cavalheiro britânico casado com a perfeita dama da sociedade, o casal modelo da Europa tradicional e o casal modelo da América moderna e rica. Conforme a narrativa avança, descobrimos que o perfeito casal britânico não é tão perfeito assim e que Edward é na verdade um homem mulherengo e viciado em jogos, afundando em dívidas que ameaçam cada vez mais seu patrimônio. Enquanto isso John percebe que seu casamento também não é o que parece e que este quarteto guarda segredos que ele talvez preferisse não saber.

Ford Madox Ford
Seria apenas mais uma história de amor e traição se não fosse a maneira peculiar como é contada. No início o narrador descreve Edward Ashburnham como um homem de moral inabalável e sua esposa Leonora Ashburnham como uma verdadeira megera. No decorrer da história o narrador nos causa estranhamento ao voltar diversas no tempo, recontar fatos sob o ponto de vista de outros personagens, transformando Edward em um degenerado e sua esposa em uma vítima infeliz, para logo em seguida, em uma nova reviravolta narrativa, redimir todos de seus pecados. Outro personagem que tem sua personalidade posta em dúvida pelo narrador é sua própria esposa, Florence Dowell, cuja honestidade também se transforma de acordo com o capítulo, o que começa a deixar em cheque nossa percepção sobre a versão da história do próprio narrador em si.


Tenho consciência de que contei esta história de um jeito muito desconexo, de forma que pode ser difícil para qualquer um encontrar seu rumo em meio ao que pode ser uma espécie de labirinto. Não pude evitar. Fiquei preso à minha idéia de estar em um chalé de alta classe com um ouvinte silencioso, que escuta entre as rajadas de vento, entre os ruídos do mar distante, a história como ela vem. E quando alguém discute um caso, um longo e triste caso, vai para trás, vai para a frente. A pessoa se lembra de pontos que havia esquecido e os explica com mais minúcias quando reconhece que esqueceu de mencioná-los em seus devidos lugares e que, ao omiti-los, podia ter dado uma falsa impressão. Eu me consolo a pensar que isto é uma história real e que, afinal de contas, histórias reais são provavelmente mais bem contadas da forma que a pessoa que conta a história a contaria. Elas então parecem mais reais.



Vejo este livro como um alerta para o fato de que nem sempre as aparências são um reflexo do que cada um guarda dentro de si, e que às vezes guardamos desejos e segredos que seriam reprováveis aos olhos da sociedade (que também sofre das mesmas falhas, diga-se de passagem). A história dos casais Dowell e Ashburnham retrata as entranhas de muitos casais em qualquer parte do mundo; pessoas vivendo sob as pressões constantes e às vezes insuportáveis entre os compromissos assumidos aos olhos da sociedade e desejos inconfessáveis. O resultado nestes casos quase sempre varia entre uma vida infeliz de um casamento de aparências e uma vida secreta de adultério que pode terminar em ruptura e escândalo. A eterna luta humana em conciliar seus desejos com os padrões sociais em constante mudança.