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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A Magia da Realidade

A Magia da Realidade (Companhia das Letras, 2013), é o novo livro de divulgação científica de Richard Dawkins, biólogo britânico mundialmente famoso e autor de obras como O Gene Egoísta, O Relojoeiro Cego, Desvendando o Arco-Íris, A Escalada do Monte Improvável, A Grande História da Evolução, O Maior Espetáculo da Terra e Deus, Um Delírio, entre diversos outros livros e documentários. Nesta nova empreitada ele é apoiado pelas ricas ilustrações de Dave Mckean que é conhecido pelas capas da série Sandman e os desenhos de Asilo Arkham, Violent Cases, Orquídea Negra, Hellblazer, entre muitos outros trabalhos. Neste livro os desenhos estão em total harmonia com o texto e não estão lá como mera ornamentação, sendo imprescindíveis para a compreensão dos conceitos apresentados. O livro é voltado para um público mais jovem, mas os adultos também aproveitarão muito bem a leitura, que é indicada para todos que gostam de ciência e tem curiosidade em saber como o mundo e o universo realmente funcionam. Nesta época em que proliferam com tanta força o fanatismo religioso e a pseudociência, o lançamento de um livro como este é um alívio e mantém a esperança de um futuro onde haverá mais sanidade.

Richard Dawkins continua sua incansável luta contra o fanatismo religioso e as pseudociências, mas adota uma tática diferente e sutil ao iniciar cada capítulo narrando como o homem antigo explicava o fenômeno através de lendas e mitos, dando exemplos retirados de lendas de tribos africanas, aborígenes, indígenas, passando pelas mitologias nórdica, egípcia, greco-romana, chinesa, japonesa, judaico-cristã, entre outras, terminando com a atual explicação científica para o tema abordado. Com esta estratégia Dawkins mostra que não existe nada de especial nos mitos que ainda persistem em nossos tempos quando os comparamos aos mitos antigos e muitas vezes esquecidos de culturas que nos precederam, e que o método científico foi o que nos possibilitou revelar a face real do universo, que se provou mais fantástico que qualquer lenda criada pela humanidade. A palavra magia do título não tem nada a ver com algo sobrenatural, mas sim, com o deslumbramento que traz a compreensão da natureza e de como ela funciona:

O terceiro significado de magia é aquele que tenho em mente no título: a magia poética. Uma música bonita pode nos comover até as lágrimas, e por vezes dizemos que uma apresentação foi “mágica”. Fitamos as estrelas numa noite escura sem lua, longe das luzes da cidade, e, deslumbrados, dizemos que é uma visão de “pura magia”. Poderíamos usar esta mesma palavra para descrever um maravilhoso pôr do sol, uma paisagem dos Alpes ou um arco-íris no céu. Nesse sentido, “mágico” significa profundamente comovente, estimulante, algo que nos deixa arrepiados e nos faz sentir plenamente vivos. O que espero mostrar a você neste livro é que a realidade – os fatos do mundo real como são compreendidos através dos métodos da ciência – é mágica neste terceiro sentido, o sentido poético, o sentido de que é bom estar vivo.

Outra coisa muito bem desenvolvida no livro foi a relação entre as diversas áreas da ciência e como uma descoberta realizada há séculos possibilita novas descobertas inimagináveis no futuro. Há um capítulo por exemplo em que ele nos descreve as experiências de Isaac Newton com óptica, em que este demonstrou que um prisma decompõe a luz em suas partes constituintes, e como essa aparentemente banal experiência nos permitiu descobrir a composição química de planetas e estrelas distantes, observar a expansão do cosmos e postular a origem do universo através do Big Bang.

O livro é dividido em doze capítulos:
1) O que é realidade? O que é magia?
2) Quem foi a primeira pessoa?
3) Por que existem tantos tipos de animais?
4) Do que são feitas as coisas?
5) Por que temos noite e dia, inverno e verão?
6) O que é o sol?
7) O que é um arco-íris?
8) Quando e como tudo começou?
9) Estamos sozinhos?
10) O que é um terremoto?
11) Por que coisas ruins acontecem?
12) O que é um milagre?

No capítulo 2, “Quem foi a primeira pessoa?”, é sensacional o experimento mental em que ele nos explica a evolução, nos pedindo para imaginar uma pilha onde colocaríamos as fotos de nossos pais, avós, bisavós, e assim por diante, regredindo no tempo milhões de anos em nossa linhagem.
  



No capítulo 7, “O que é um arco-íris?”, através dos desenhos de Dave McKean finalmente entendi de verdade como se forma um arco-íris.



Destaco também o capítulo 10, “O que é um terremoto?” onde aprendemos a teoria das placas tectônicas e o que causa um terremoto, através da analogia da escada rolante.


A edição está caprichada, impressa em papel especial e encadernada com capa dura, em formato grande (25 x 19,5 cm), respeitando todo o layout da edição original em inglês e com preço sugerido de apenas R$ 54,00, muito pouco para a qualidade gráfica do livro. Um excelente presente para crianças, jovens e até mesmo adultos para dar nas festas de fim de ano, principalmente se você se importa com a sanidade deles.

Muita coisa permanece envolta em mistério, e não é provável que um dia desvendemos todos os segredos de um universo vasto como o nosso. Porém armados com a ciência, podemos pelo menos fazer perguntas sensatas e significativas e reconhecer respostas dignas de crédito quando as vir. Não precisamos inventar histórias implausíveis. Temos o prazer e o entusiasmo da verdadeira investigação e descoberta científica para manter nossa imaginação na linha. E isso, no fim das contas, é mais emocionante que a fantasia.



segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Nós vamos morrer, e isto nos torna afortunados

Richard Dawkins, o grande biólogo e divulgador da ciência, afirmou em alguns de seus livros e documentários que tem dois desejos para quando chegar a hora de morrer: 1) Que seus últimos momentos sejam gravados, para que não façam nenhuma acusação infundada de conversão religiosa antes do derradeiro momento, como maldosamente fizeram com Charles Darwin; 2) Que ao invés da cerimônia religiosa e leitura dos trechos bíblicos de praxe, seja realizada uma despedida simples com a presença de seus amigos e familiares mais próximos e que seja lido o trecho abaixo retirado de seu livro Desvendando o Arco-Íris:


Nós vamos morrer, e isto nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda a nossa banalidade, que estamos aqui.



Richard Dawkins
Gostaria de deixar registrado meu desejo de que seja realizada a leitura deste texto no meu enterro também, pois nunca se sabe quando a hora vai chegar...