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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Ancillary Justice, de Ann Leckie

Ancillary Justice (Orbit, 2013) é um livro de ficção científica escrito pela americana Ann Leckie. É a estreia da autora, que ganhou os principais prêmios de ficção científica de 2014, entre eles o Hugo Award, Nebula Award, BSFA Award, Arthur C. Clarke Award e Locus Award, além de ter sido nomeado para diversas outras premiações.

A história se passa milhares de anos no futuro no espaço Radch, um império em permanente estado de guerra se expandindo por vários sistemas estelares da galáxia, anexando planetas e espalhando sua civilização e religião, apesar de assimilar alguns aspectos da cultura dominada – principalmente religiosos. Este império galáctico lembra muito o Império Romano, herdeiro dos gregos e que também assimilou aspectos culturais de outras civilizações em sua expansão. Já a religião lembra o cristianismo, que no início também assimilou várias características e rituais pagãos, o que facilitava a conversão entre os povos conquistados. Os Radchaai se veem como mais avançados e civilizados, e a assimilação de outras civilizações é violenta cruel, incluindo a transformação de milhares de prisioneiros em ancillaries. Neste processo a consciência é apagada, e através de implantes cibernéticos estes indivíduos passam a ser meros receptáculos das inteligências artificiais que comandam as naves de guerra e estações.

Naves do Império Radch
Acompanhamos então a história de Breq, a inteligência artificial de uma imensa nave estelar de guerra que agora habita apenas uma ancillary humana. Ela foi a única sobrevivente da destruição desta nave em uma conspiração, e se encontra sozinha e abandonada em um planeta gelado. Breq busca vingança contra o Lorde de Radch Anaander Mianaai, o imperador que de alguma forma foi o responsável pela destruição de sua nave. Em capítulos alternados, acompanhamos flashbacks que mostram Breq quando era a nave de guerra Justice of Toren e controlava milhares de ancillaries durante a conquista de um planeta oceânico. Durante o desenrolar das duas linhas narrativas alternando passado e presente, Breq descobre as raízes de uma conspiração que pode ameaçar o futuro do próprio Império Radch.

Ann Leckie
Nos capítulos em flashback a autora encontra uma forma inovadora de contar a história, através do ponto de vista em primeira pessoa da nave Justice of Toren, que se confunde com um ponto de vista em terceira pessoa, já que a consciência dela está espalhada por várias ancillaries, e desta forma, acompanhamos simultaneamente vários personagens em locais diferentes. Outro aspecto singular do romance é o fato de não haver definição de gênero – Breq se refere a todos como she (ela) – e temos muita dificuldade em definir o sexo dos personagens, mas que acaba se provando irrelevante para a história.

O livro Ancillary Justice faz parte da trilogia Imperial Radch e é seguido por Ancillary Sword (2014) e Ancillary Mercy (2015). Já há um projeto de transformar a história em uma série de televisão pela produtora Fabrik, que produz a série The Killing, para o canal Fox Television Studios. A editora Aleph prometeu o lançamento da versão em português para o segundo semestre de 2016.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

El Engaño Populista, de Axel Kaiser e Gloria Álvarez

É sabido que o inferno é o lar das boas intenções, mas a realidade é que este lugar quente e miserável – como nossa América Latina – está repleto mesmo daqueles que posam de abnegados e vociferam boas intenções em público, mas praticam atos demoníacos nas sombras do privado – nosso querido continente novamente. É a onipresente hipocrisia, que transportada para a política podemos chamar de populismo. El Engaño Populista: por qué se arruinan nuestros países y cómo rescatarlos (Deuso, Espanha, 2016), de Axel Kaiser e Gloria Álvarez, é um livro sobre o fenômeno do populismo, esta forma de governar que assola a América Latina há décadas, tem raízes profundas em nossa cultura e é o maior responsável pelo atraso dos países da nossa região. É o livro de estreia da cientista política guatemalteca Gloria Álvarez, crítica ferrenha do populismo em nosso continente, que ficou famosa após seu discurso no Parlamento Iberoamericano da Juventude, em Zaragoza, se tornar viral no YouTube com milhões de visualizações. Ela divide a autoria com o chileno Axel Kaiser, escritor liberal membro da Fundación para el Progreso, uma think tank do Chile que dissemina ideias liberais neste país.

Gloria Álvarez
O populismo é a forma de governar típica dos caudilhos carismáticos, que utilizando sempre o discurso de agir em nome e benefício do povo, em especial dos mais pobres, usam e abusam de todos os meios disponíveis – institucionais e autoritários – para se manterem no poder e beneficiarem a si próprios e seus aliados. Para isso, dividem a sociedade entre “povo” – do qual alegam fazer parte e serem os únicos e legítimos representantes – e “anti-povo” – todos aqueles que discordam de suas ideias, não pertencem ao partido ou grupo e são concorrentes ou opositores –, ou seja, em nós contra eles. Valendo-se de um suposto monopólio das virtudes e das boas intenções construído no imaginário popular, subvertem as instituições do Estado, seja de forma democrática ou autoritária, a fim de se perpetuarem no poder através do controle dos poderes Judiciário e Legislativo, ataques à imprensa livre, fraudes nas eleições, intimidações e calúnias a opositores, muita corrupção, entre outros subterfúgios. Já bem estabelecidos no poder, impõem políticas que violam as liberdades econômicas e individuais e invariavelmente acabam levando ao colapso econômico e social, aumentando ainda mais a miséria e o atraso em seus países. No momento em que isto acontece, usam do carisma, dos intelectuais e artistas cúmplices, e do controle dos meios de comunicação para pôr a culpa no anti-povo, o inimigo interno ou externo de sempre, que pode ser alguma potência estrangeira, a CIA, as elites, a oposição ou qualquer outro espantalho criado pelo regime, cuja ação conspiratória explicará o fracasso das medidas do governo. Isto justifica um aumento ainda maior das intervenções do Estado na economia e a supressão das liberdades individuais dos cidadãos, de forma cada vez mais autoritária. O exemplo mais dramático é o da Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, cujo regime levou o país ao caos econômico, e onde imperam as perseguições políticas, a repressão à mídia livre e os ataques à liberdade de expressão, cujo resultado foi a corrupção institucionalizada e o aumento da violência e da pobreza.

Axel Kaiser
Os novos governantes populistas da América Latina são herdeiros intelectuais do famigerado Foro de São Paulo, seminário criado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no Brasil em 1990 e que ainda se reúne a cada dois anos até hoje, e é frequentado por partidos e organizações de esquerda do continente – incluindo grupos guerrilheiros como as FARC. Nestas reuniões são traçadas as estratégias para a chegada e a manutenção no poder destes grupos em seus respectivos países, as diretrizes ideológicas e a colaboração entre as nações ideologicamente alinhadas ao socialismo/comunismo. A criação do Foro foi uma consequência direta da queda do Muro de Berlin e da derrocada do comunismo nos países que compunham a antiga União Soviética. A intenção do seminário foi o estabelecimento do novo norte ideológico para os partidos comunistas/socialistas da América Latina em Cuba, após a perda da referência que era a URSS. Entre os países governados por populistas alinhados ao Foro de São Paulo, podemos destacar, além da Venezuela, a Argentina dos Kirchner, o Equador de Rafael Correa, a Bolívia de Evo Morales, o Chile de Michelle Bachelet e o Brasil de Lula e Dilma Roussef, para ficar apenas naqueles onde esta ideologia está mais bem estabelecida. Muito além de se estabelecerem no poder, estes governantes lograram êxito em estabelecer uma hegemonia cultural do populismo de esquerda, que permeia toda a sociedade e está incrustada na política, na arte, nas escolas, universidades e meios de comunicação.

Como único meio eficaz de combater o populismo, os autores alertam para a necessidade urgente da disseminação das ideias liberais através das redes sociais, fundações, vídeos, publicação de livros e quaisquer outros meios de divulgação, como forma de conscientizar a população e desta forma quebrar a hegemonia desta ideologia em nosso continente. É necessário espalhar os ideais libertários que levaram à prosperidade tantos países do mundo, além de denunciar as ideias socialistas e a utopia do comunismo, que tanta morte, fome, pobreza e escravidão trouxeram a todos que tentaram adotá-la.  Derrotar o populismo não é eleger os líderes políticos certos que vão liderar nossos países rumo à prosperidade: políticos apenas seguem a ideologia da moda, e atualmente ela é o populismo de esquerda. Portanto, é necessário lutar contra a doutrinação ideológica que a esquerda populista vem realizando há décadas através da infiltração silenciosa no meio artístico, nos meios de comunicação e no ensino em nossas escolas e universidades. Somente vencendo esta batalha ideológica o populismo poderá ser definitivamente derrotado e poderemos ter verdadeiras repúblicas em nosso continente: prósperas, sem miséria e verdadeiramente democráticas e livres.

O livro (em espanhol) está na pré-venda na Amazon.com.br e já pode ser baixado na versão Kindle por R$ 36,08. Ele também pode ser encomendado no site da Amazon.com.es. Ainda não há notícia de nenhuma editora anunciando a sua publicação no Brasil.


Discurso da autora Gloria Álvarez sobre o populismo no Parlamento Iberoamericano da Juventude:



quinta-feira, 19 de maio de 2016

Eu, Lápis, de Leonard Read

Eu, Lápis (I, Pencil), é um famoso ensaio escrito pelo economista Leonard Read, fundador da Foundation for Economic Education (FEE) [Fundação para a Educação Econômica], sobre a complexidade e, por que não dizer, da beleza do livre mercado. É uma fantástica metáfora sobre o funcionamento da economia moderna, explicando para o público leigo como são complexas as interações entre os diversos agentes econômicos e a impossibilidade do planejamento central de uma economia, tudo através da genealogia de um simples lápis.

Nunca paramos para pensar, mas é impossível para um ser humano sozinho fabricar um simples lápis. É atordoante pensar na quantidade de pessoas que trabalharam para fabricar este simples objeto feito de madeira, grafite, borracha e metal: o lenhador que derrubou a árvore, quem fabricou as ferramentas e quem preparou o almoço do lenhador; os mineiros que retiraram o grafite das minas, aqueles que transportaram o grafite para a fábrica, os que fabricaram o caminhão que transportou a carga e os que prepararam o grafite e o moldaram no formato correto; aqueles que extraíram o metal de uma mina, a siderúrgica que preparou a liga metálica; os que extraíram a borracha de uma seringueira, e a prepararam, moldaram, transportaram e a encaixaram em seu lugar; são milhões de pessoas espalhadas por vários países do mundo!

Leonard E. Read
A esmagadora maioria destas milhões pessoas não tem a menor ideia de que uma ínfima, ainda que fundamental parte de seu tempo está sendo usado na fabricação de um mero lápis. Ninguém coordena, nem muito menos comanda esta multidão de pessoas e este gigantesco aparato logístico; somente as forças do mercado, que guiam os interesses individuais de cada envolvido na fabricação deste simples objeto, que compramos por um preço irrisório em uma papelaria.

O escrito de Read ficou famoso ao ser citado pelo economista Milton Friedman no documentário Free to Choose [Livre para Escolher] e é mais atual do que nunca nestes tempos em que os governos interferem cada vez mais na economia sob o pretexto de corrigir as falhas de mercado, com resultados catastróficos no desenvolvimento econômico, nas liberdades individuais e no bem-estar da população.

O artigo pode ser lido na íntegra no website da FEE (em inglês) clicando aqui.

Se preferir, o artigo pode ser lido também na íntegra e traduzido para o português na página do Instituto Ludwig von Mises Brasil clicando aqui.

Este é o vídeo feito pela FEE, dublado em português pelo Instituto Rothbard Brasil:



Este é um trecho do documentário Free to Choose, de Milton Friedman, que tornou famoso o ensaio de Leonard Read:


domingo, 15 de maio de 2016

Guerra do Velho, de John Scalzi

O livro Guerra do Velho (Old Man’s War, 2005), de John Scalzi, é uma das melhores ficções cientificas já publicadas, lançado agora no Brasil pela excelente editora Aleph. A história se passa em um futuro onde a humanidade se espalhou por vários sistemas estelares, e se deparou com várias raças alienígenas no caminho, as vezes cooperando e as vezes guerreando com elas. Mas a Terra permanece mais ou menos como a conhecemos hoje, pois toda tecnologia futurista está nas mãos das Forças de Defesa Colonial, que defende os interesses humanos nas diversas guerras empreendidas em outros planetas no espaço. É aí que vem a ideia central e mais interessante da trama: os soldados recrutados são idosos de 75 anos!

Ao completar a idade de 75 anos, todo cidadão pode escolher se alistar nas Forças de Defesa Colonial e lutar pela humanidade no espaço. Para isso, receberá um novo corpo, jovem e aperfeiçoado, mas deverá servir em um exército e lutar por 2 anos prorrogáveis por mais 8, e nunca mais poderá voltar para a Terra, se tornando um colono em alguma das várias colônias da humanidade no espaço após terminar o seu tempo de serviço – se sobreviver, é claro. O problema é que ninguém na Terra sabe exatamente o acontece lá fora, e as guerras no espaço podem ser bem mais difíceis e sangrentas do que qualquer um pode imaginar, com perigos que ninguém jamais poderá prever.

John Scalzi
Apesar do tema aparentemente lúgubre do livro, sua maior qualidade é o humor. O protagonista John Perry é hilário e tem sempre uma tirada engraçadíssima nas mais variadas situações, seja diante da entediada funcionária do centro de alistamento, no duro treinamento dos futuros soldados – com um instrutor escrotíssimo que lembra aquele do clássico “Nascido para matar”, do Stanley Kubrick –, e até nas batalhas mais bizarras que você já terá visto.

Guerra do Velho é uma história fechada, mas devido ao sucesso estrondoso teve mais seis continuações, e segue em The Ghost Brigades, The Last Colony, Zoe's Tale, The Human Division e The End of All Things; há também duas histórias curtas: The Sagan Diary, e After the Coup. Existe uma série de TV em produção no canal SyFy baseada em The Ghost Brigades, passada no universo do livro, e a Paramount comprou os direitos para uma futura adaptação cinematográfica. Torço para que o livro seja um sucesso de vendas no Brasil e que a editora Aleph possa publicar as continuações em nosso país.

Veja a resenha do livro em um vídeo da equipe da editora Aleph:



Aqui você pode ver uma mensagem do autor John Scalzi para os fãs brasileiros:



Acompanhe também o excelente Canal do YouTube da Editora Aleph, com lançamentos de livros, resenhas, notícias e muita coisa interessante.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Por Que as Nações Fracassam – As origens do poder, da prosperidade e da pobreza, de Daron Acemoglu & James Robinson

Por Que as Nações Fracassam (Elsevier, 2012), do economista turco Daron Acemoglu e do economista e cientista político britânico James Robinson, é um livro fascinante que apresenta uma teoria bem original para tentar explicar o desenvolvimento e o subdesenvolvimento das nações ao redor do mundo. Diferentemente do senso comum brasileiro e seu viés marxista, que tenta explicar a pobreza das nações subdesenvolvidas com base em fatores como o “passado colonial”, “imperialismo”, “luta de classes”, “mais valia”, “divisão internacional do trabalho”, “exploração capitalista”, “cultura”, “clima” e outras baboseiras, os autores identificaram o fator crucial para a prosperidade ou a pobreza de uma nação: o conjunto de suas instituições políticas e econômicas, que podem ser inclusivas ou extrativistas. Esta diferença é fundamental para se entender o sucesso ou fracasso de uma nação, como é mostrado em vários exemplos mundo afora no decorrer da leitura do livro.

Instituições políticas inclusivas são aquelas que permitem a participação de amplos segmentos da sociedade nas decisões de governo, e a pluralidade impede a hegemonia dos interesses de uma elite. As instituições econômicas inclusivas são aquelas que criam um ambiente favorável à criação de riqueza, com o respeito à propriedade privada, carga tributária simples e justa que não inviabilize a atividade econômica, livre concorrência e outros incentivos à inovação e ao livre empreendimento. Por outro lado, as instituições políticas extrativistas são aquelas que impedem a participação política de amplos segmentos da sociedade e as decisões de governo são exclusivas de um ditador e seus seguidores ou de uma elite entranhada no poder, sem o pluralismo que traz limites ao poder estabelecido e impede seus abusos. As instituições econômicas extrativistas são aquelas controladas por uma elite econômica que através de monopólios e protecionismo, impedem a livre concorrência, impossibilitando o livre empreendimento e a inovação advinda da destruição criativa, além de criarem restrições à propriedade privada.

James Robinson & Daron Acemoglu
Ao contrario do que diz o senso comum, fatores como a geografia, passado colonial e a cultura são importantes, mas não decisivos no sucesso ou fracasso de um país: o fator decisivo é sempre o conjunto de instituições adotadas, que dependem da contingência histórica de cada nação. Um exemplo marcante é o das Coréias: países com geografia, passado colonial e cultura em comum, mas que divididos pela contingência histórica da Guerra Fria, tiveram desenvolvimento político e econômico muito diferente. Enquanto a Coréia do Sul acabou adotando um regime democrático e economia capitalista de livre mercado, tornando-se desenvolvida e rica, a Coréia do Norte foi dominada por uma ditadura socialista que implantou uma economia planificada e condenou sua população à miséria e ao terror.

Interessantes também são os capítulos sobre os círculos virtuosos e viciosos. Países com instituições inclusivas tendem a reforçar estas instituições, pois nestes há pesos e contrapesos que impedem a hegemonia de um segmento da sociedade e o abuso do poder. Já nos países onde há instituições extrativistas, estas infelizmente tendem a reforçar seu domínio e a exploração. É a chamada Lei de Ferro da Oligarquia, em que mesmo a derrubada de uma elite do poder não necessariamente leva à prosperidade e a criação de instituições políticas e econômicas inclusivas: uma nova elite pode se aproveitar das instituições extrativistas existentes e ampliar a exploração, como ocorreu na maioria dos países africanos, em que após a independência, regimes brutais causaram ainda mais miséria e exploração que as antigas metrópoles.


Mas segundo os autores, apesar de difícil, não é impossível para um país derrubar suas instituições extrativistas: a contingência histórica sempre pode proporcionar as oportunidades para que instituições inclusivas tenham a sua vez. Países com instituições econômicas extrativistas podem até ter um surto de crescimento econômico, como no caso da Alemanha Nazista e da União Soviética no passado e da China atualmente, mas este não se dá de forma sustentável e mais cedo ou mais tarde terá um fim. No caso chinês, cujo vertiginoso crescimento econômico das últimas décadas se deu após a adoção de instituições econômicas inclusivas na década de 70, o crescimento no futuro dependerá da derrubada de suas instituições políticas extrativistas para continuar se desenvolvendo de forma sustentável. Esta é a grande lição deste livro fantástico, que nos deixa a esperança de um futuro melhor para a humanidade e para os bilhões de pessoas que ainda sofrem com a tirania e o subdesenvolvimento causados pelas instituições extrativistas.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Submissão, de Michel Houellebecq

Submissão, do escritor francês Michel Houellebecq (Alfaguara, 2015) não é mais um livro erótico para mulheres da onda que se seguiu à publicação da trilogia 50 Tons de Cinza. É uma sátira política sobre a França no futuro próximo (ano de 2022), em que o candidato muçulmano Mohammed Ben Abbes, do fictício partido Fraternidade Muçulmana, ganha as eleições presidenciais se aproveitando da total descrença e apatia da população com a política francesa, dominada nas últimas décadas pela disputa centro esquerda/centro direita. Com fama de moderado, fala mansa, conciliador e muito carismático, Ben Abbes consegue uma ampla coalizão entre os partidos de esquerda e centro direita, e impõe uma vitória histórica no segundo turno das eleições sobre o partido de ultradireita Frente Nacional, de Marine Le Pen. O que se segue então é uma lenta e constante mudança nas leis e a erosão dos valores ocidentais com o fim de acomodar a lei islâmica da Sharia nos corações e mentes do povo francês. São permitidas escolas e universidades laicas, mas as instituições de ensino públicas se tornam islâmicas e separadas por sexo; mulheres são incentivadas a usar véus e a deixar de trabalhar; é autorizada a poligamia; incentivos econômicos são retirados da indústria e realocados para o artesanato familiar; judeus são discriminados e começam a deixar o país; entre outras mudanças culturais e econômicas. Sob a covarde subserviência dos políticos e intelectuais, os valores ocidentais vão sendo dilapidados e, quando todos se dão conta, um estado teocrático é instalado sem que seja preciso ser derramada uma gota de sangue sequer na jihad. Melhoras nos indicadores econômicos – com a saída das mulheres do mercado de trabalho o desemprego despenca – e a redução nos índices de violência fazem com que os franceses assistam passivamente à destruição de sua cultura.

Michel Houellebecq
Neste pano de fundo político, acompanhamos François, um professor universitário amargo e solitário, totalmente desiludido com a vida e o amor. Totalmente apático e alheio às mudanças históricas que acontecem ao seu redor, ele passa os dias entre um relacionamento ocasional e outro, tentando se adequar aos novos tempos, quando recebe uma oferta tentadora do novo regime, mas que o põe em conflito com suas poucas convicções e valores restantes. Ele é o típico cidadão do ocidente rico e próspero: herdeiro da civilização ocidental e beneficiário do welfare state europeu, mas totalmente anestesiado pela cultura da estupidez e indiferente à luta política em torno dos valores que ditarão os rumos de seu país e do mundo civilizado. A submissão não se dá pela força, mas sim, pela preguiça, indiferença e o vazio existencial de uma sociedade que acredita que todos os direitos e liberdades estão consolidados e não sofrem o menor risco de desaparecer.


Capa do satírico Charlie Hebdo com Michel Houelebecq
Pessoas reais como François Hollande, Nicolas Sarkozy, Luc Ferry, Marine Le Pen e outros, convivem com o fictício Mohammed Ben Abbes, neste ótimo livro que, apesar de se passar no futuro próximo, fala sobre o nosso tempo; sobre os perigos tão negligenciados do fundamentalismo religioso e do relativismo cultural, que estão pondo em risco os valores e instituições fundamentais tão caros ao ocidente, como o estado democrático de direito, a liberdade de expressão, a igualdade entre os sexos e os direitos humanos, sob o pretexto da tolerância e do multiculturalismo. Hoje cartunistas são ameaçados de morte na Dinamarca; outros foram assassinados na sede do satírico Charlie Hebdo – do qual Michel Houellebecq era capa no dia do atentado – ocorrido na própria França; uma tentativa frustrada de atentado terrorista durante uma mostra de cartoons nos Estados Unidos; poligamia; mutilações e casamentos forçados de meninas que são obrigadas a usar a burka para sair na rua em plena Europa democrática; são apenas alguns exemplos de ataques diretos contra a liberdade de expressão e os direitos humanos que ocorrem todos os dias no seio do ocidente, com a total omissão, e, às vezes, até o apoio de intelectuais e líderes políticos ocidentais. Resumindo em uma palavra: submissão.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A Vida na Sarjeta – O Círculo Vicioso da Miséria Moral, de Theodore Dalrymple

Theodore Dalrymple é o pseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Daniels, que está sendo chamado pela crítica de “o novo George Orwell”. Neste livro ele escreve sobre a violência e a pobreza na underclass britânica – aqui traduzida como subclasse –, criminosos, viciados, mendigos, e outros homens e mulheres desempregados e sem qualificação, vivendo miseravelmente à margem da sociedade. Mas diferente de outros autores, Dalrymple não cai nas explicações fáceis do senso comum e nas justificativas progressistas que normalmente acompanham o tema e o explicam pela simples associação entre a pobreza e a violência, e tudo resumem à luta de classes, discriminação e exploração capitalista. Ele nos mostra que na verdade a pobreza não é o fator preponderante na explicação do fenômeno da violência; que pior que ela são a impunidade e a destruição de valores fundamentais à civilização e ao bom convívio social. Com a bagagem de quem trabalhou mais de vinte anos em uma prisão e num hospital localizado em uma das áreas mais pobres da Inglaterra, ele nos explica que muito mais que fatores econômicos, a raiz do problema está nas ideias amplamente disseminadas por intelectuais, artistas e políticos progressistas da vitimização e do relativismo moral, que retiram a responsabilidade individual e põe toda a culpa na sociedade.

Theodore Dalrymple
Os casos de violência descritos no livro, relatados com extrema crueza por Dalrymple, certamente deixariam intrigados os intelectuais brasileiros, que tem o irritante hábito de explicar a violência jogando tudo na conta do capitalismo, luta de classes, racismo, favelização, violência policial, e, principalmente, na ineficiência do governo, que falha na entrega de serviços públicos como educação, saúde e moradia dignas e de qualidade, e que serve apenas às classes mais abastadas da sociedade. Os pacientes dele em sua maioria são brancos, desfrutam de todos os benefícios do welfare state europeu e tem garantidos moradia e suporte financeiro do governo, e por viverem em um dos países mais ricos do mundo, não podem reclamar de falta de acesso à educação, segurança e saúde de qualidade. Então por que há tantos viciados em drogas, assaltos e violência contra a mulher da Inglaterra de Dalrymple? Resposta: observe o que os intelectuais, artistas e políticos progressistas estão fazendo à sociedade. O fenômeno é universal.

Vivemos em uma época estranha de relativismo moral, em que é cada vez mais disseminada a ideia de que a culpa pelas transgressões individuais são da coletividade. Alguém comete um crime, seja um assalto ou um homicídio? A da culpa é da sociedade pela falta de oportunidades que o levou a cometer este ato de “desespero”; não dele, que o cometeu conscientemente. O viciado em drogas que está perecendo em um casebre imundo em condições inumanas de insalubridade? A culpa é da sociedade que criminaliza as drogas e discrimina o usuário; não da opção consciente dele pelo prazer temporário do uso de uma substância que sabidamente é tóxica e causa dependência. E a mulher jovem, mas que já teve vários filhos de diferentes pais e foi espancada por todos eles? Novamente a culpa é da sociedade que não dá educação; não da mulher que buscou o prazer fácil e irresponsável com homens violentos, muito menos de seus companheiros que a agrediram de forma covarde e impune. E a solução para estes e muitos outros casos? Segundo a intelligentsia: menos prisões, liberação de todas as drogas, sexo e prazer sem limites; e quando a violência, o vício, a doença e os filhos ilegítimos sem pais e mães baterem à nossa porta, é só o governo resolver tudo com mais auxílios!

A vida quase nunca é fácil e o mundo não é de forma alguma um lugar justo, mas se não assumirmos a responsabilidade por nossas decisões e acharmos que somos apenas vítimas passivas de uma sociedade cruel, nunca iremos prosperar. O ambiente cultural em que vivemos nos diz o tempo todo que podemos tudo e temos direito a tudo; que ser o mais esperto e se dar bem em tudo é um ideal – vejam os heróis dos filmes, novelas e livros! –; que coisas como a cortesia, o amor e a arte são cafonas e ultrapassados; e que o governo tem que resolver todos os nossos problemas. Estas ideias estão destruindo a civilização e afogando as pessoas em miséria – econômica, moral e cultural – e violência. Como diz o próprio Theodore Dalrymple ao final de sua introdução:


Nos textos a seguir tentei, primeiramente, descrever sem disfarces a realidade da subclasse e, então, revelar a origem desta realidade, que é a propagação de ideias más, insignificantes e insinceras. Não é necessário dizer que uma avaliação verdadeira das causas da miséria da subclasse é proveitosa, caso decidamos combatê-las e, principalmente, evitar soluções que só agravarão esse cenário. Se traço um quadro de um estilo de vida que é totalmente sem encanto ou mérito, e descrevo muitas pessoas pouquíssimo atraentes, é importante lembrarmo-nos de que, caso haja culpa, uma grande parte é devida aos intelectuais. Não deveriam ter sido tão tolos, mas sempre preferiram evitar-lhes o olhar. Consideraram a pureza das ideias mais importante que as reais consequências. Desconheço egotismo mais profundo.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Os melhores livros de ficção científica militar

Ficção científica militar é um subgênero da ficção científica com tramas que se passam em guerras, sejam no espaço ou na Terra, em que os protagonistas lutam em exércitos regulares. Desta forma, histórias sobre grupos rebeldes lutando contra regimes galácticos opressores, como em Star Wars, não se encaixam nesta categoria, sendo classificadas mais adequadamente como Space Operas.

Este ramo da ficção científica não deve ser acusado de propaganda à guerra e ao militarismo – livros como Forever War fazem críticas contundentes à guerra. São histórias que exaltam a luta pela sobrevivência nos campos de batalha, o companheirismo entre os soldados, a defesa da humanidade, e a coragem, determinação e união que são exigidas para derrotar inimigos muito mais poderosos.

A lista segue a ordem cronológica de lançamento. Os que estão com o título em português foram publicados no Brasil.


1) Tropas Estelares (Starship Troopers), de Robert Heinlein, 1959

Livro que inaugurou o gênero, mostra a humanidade representada pela Confederação Terrestre em uma guerra interestelar contra alienígenas com formato de insetos do planeta Klendathu. O protagonista é Juan “Johnnie” Rico, um recruta da Infantaria Móvel de um exército futurista de soldados equipados com poderosas armaduras de combate, as Jump Suits. A trama acompanha sua ascensão de soldado até oficial nas fileiras do exército e suas diversas batalhas contra os bugs.

É o livro mais controverso da lista, pois mostra um futuro em que só é cidadão com direito ao voto aquele que serve nas forças armadas da Confederação Terrestre. O livro também toca em temas como pena de morte, castigos físicos, militarismo, democracia e liberdade. Seu autor, Robert Heinlein, foi oficial da Marinha dos Estados Unidos e é considerado um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos, sendo sempre colocado ao lado de nomes como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. Ele foi acusado diversas vezes de fascismo por Tropas Estelares, mas é curioso como anos mais tarde este mesmo autor escreveu Stranger In a Strange Land, livro se tornou inspiração para os hippies e a geração Sexo, Drogas e Rock ’n’ Roll.

O livro ganhou o prêmio Hugo de melhor romance em 1960 e foi adaptado para o cinema por Paul Verhoeven em 1997. O filme não respeita muito a história original e não fez muito sucesso nas bilheterias, mas é considerado um cult e foi muito elogiado pela crítica como uma sátira fascista do militarismo americano. O filme teve duas continuações horrorosas de baixo orçamento, Starship Troopers 2: Hero of the Federation, de 2004, e Starship Troopers 3: Marauder, de 2008; uma série de animação com 37 episódios, Roughnecks: Starship Troopers Chronicles; um longa em animação gráfica chamado Starship Troopers: Invasion; e várias minisséries em quadrinhos pela editora Dark Horse Comics. Há planos para uma nova adaptação para o cinema, desta vez mais fiel ao material original.


2) Guerra Sem Fim (Forever War), de Joe Haldeman, 1974

Mais um clássico da ficção científica militar, neste livro acompanhamos a história do recruta William Mandela, que se alista nas forças armadas das Nações Unidas para lutar em uma guerra interestelar contra alienígenas conhecidos como Taurianos. Para viajar as vastas distâncias interestelares as naves viajam através de portais chamados colapsares, que permitem viajar muitos anos-luz em segundos, mas com pesados efeitos relativísticos – no planeta Terra se passam décadas ou até séculos a cada viagem.

Este livro não é apenas uma imitação de Tropas Estelares ou uma Space Opera qualquer. O recruta William Mandela não é um herói que salva o dia com grandes atos de heroísmo e bravura, mas sim, uma pessoa comum relutando em lutar uma guerra que não entende e está mais preocupado em sobreviver e voltar para casa. Ele continua vivo mais por sorte do que por sua habilidade como guerreiro ou da estratégia adotada por seus comandantes, em uma guerra onde milhares morrem no interior das naves sem sequer ter a chance de lutar contra o inimigo.

O foco da história é nas mudanças ocorridas na sociedade terrestre após as décadas que se passam até o seu retorno – devido à dilatação temporal – e em sua dificuldade de adaptação aos novos tempos. Com a economia mundial cada vez mais destroçada por causa da guerra, o planeta é um local cada vez mais perigoso, com a ruas dominadas por bandidos; governos racionam alimentos e tentam conter o crescimento populacional incentivando cada vez mais o controle de natalidade e as relações homossexuais. Com o passar dos séculos praticamente todo cidadão é gay, e os costumes e a linguagem mudam tanto que nosso protagonista quase não consegue se comunicar com outras pessoas. A cada retorno o mundo se torna um lugar tão diferente que ele se sente cada vez mais deslocado e sem vontade de se adaptar, à vontade somente na presença de outros veteranos, o que faz ele continuar na carreira militar.

Um alerta: não há nenhuma crítica ao homossexualismo nesta história! O autor foi veterano da guerra do Vietnã, sendo ferido em combate e condecorado com uma das mais altas comendas das forças armadas americanas. Guerra Sem Fim é uma metáfora da situação daqueles que lutaram nesta guerra e voltaram para a casa no final dos anos 60 e início dos anos 70 – época de algumas das maiores transformações culturais já vistas na história da humanidade – e encontravam uma sociedade muito diferente daquela que deixaram. Foi a época dos grandes protestos contra a guerra, os arsenais nucleares, o preconceito racial e sexual; e pelos direitos civis, a liberação sexual, a liberalização das drogas e a paz mundial.

Guerra Sem Fim ganhou o prêmio Nebula em 1975, e os prêmios Hugo e Locus em 1976. Teve duas continuações: Forever Free, de 1997 e Forever Peace, de 1999. Em 2008 o cineasta Ridley Scott anunciou ter comprado os direitos para adaptar o livro para o cinema.


3) Armor, de John Steakley, 1984

O menos badalado da lista – mas nem por isso de qualidade inferior –, este livro pode parecer à primeira vista uma imitação barata de Starship Troopers se você ler desatentamente alguma resenha sobre ele, mas esta impressão é desfeita logo nas primeiras páginas. No futuro a humanidade está envolvida até o pescoço na Antwar, uma guerra contra alienígenas de três metros de altura em formato de insetos conhecidos como ants. Para combatê-los, os soldados humanos lutam com super-armaduras que são o produto de centenas de anos de evolução tecnológica. Felix é um soldado batedor enviado para Banshee, planeta de origem dos alienígenas, em uma grande ofensiva da humanidade em território inimigo. Os humanos são emboscados e massacradas pelos insetos, que estão em esmagadora maioria e contam com armas desconhecidas que pegam as tropas de surpresa. Em meio ao enxame de inimigos uma estranha entidade chamada engine assume o comando da mente de Felix e ele começa a lutar com uma ferocidade e habilidade jamais vistos em um ser humano, transformando-se em uma máquina de matar. Após uma verdadeira carnificina em meio a milhares de inimigos, Felix se vê como o único sobrevivente das tropas enviadas ao planeta, e logo depois de ser resgatado é enviado novamente ao front. Ele sobrevive batalha após batalha, suportando as mais duras provações, sempre salvo nos momentos cruciais pela engine; com o tempo ele acaba se questionando sobre a razão desta guerra e como ele se tornou o ser humano com mais combates no currículo, além da misteriosa natureza da entidade que o comanda quando ele está em perigo.

Em outra trama paralela, um pirata espacial que adotou a alcunha de Jack Crow consegue fugir de uma prisão alienígena e se junta à tripulação da nave de um grupo de desertores da Antwar. A nave do grupo vai até Sanction, um distante planeta com uma colônia de pesquisa onde Jack terá de se infiltrar entre os pesquisadores e traí-los para roubar seu combustível para a nave. Mas conforme ele vai vivendo o dia a dia da colônia e se envolvendo cada vez mais com seus habitantes, sua lealdade começa a mudar de lado. Enquanto isso, em uma nave perdida no espaço, uma armadura carrega as lembranças de um soldado que lutou diversas batalhas na Antwar. Esta é a armadura de Felix, o melhor mais experiente soldado da humanidade.

Que fim levou Felix e como sua armadura foi parar em uma nave perdida no espaço? Quem terá a lealdade de Jack Crow? As duas tramas se unem em um dos finais mais eletrizantes que eu já li.


4) All You Need Is Kill (Ōru Yū Nīdo Izu Kiru), de Hiroshi Sakurazaka, 2004

Único livro da lista de um autor que não é americano – Hiroshi Sakurazaka é japonês, como o nome já indica – e o único que se passa na Terra. Neste a humanidade luta há anos contra uma horda de alienígenas conhecidos como mimics. Acompanhamos o soldado Keiji Kiriya, um recruta da divisão de armaduras de combate do exército japonês que morre em poucos minutos na sua primeira batalha, mas acorda no dia anterior à sua morte. Antes de morrer ele encontra a lendária Full Metal Bitch, uma supersoldado das forças especiais americanas que luta com um machado gigantesco e é a melhor combatente da humanidade.

Ele então percebe que sempre que morre, acaba retornando à mesma hora do dia anterior à batalha e decide então aproveitar a situação para melhorar suas habilidades de combate, como em um grande jogo de vídeo game. Em seu novo treinamento ele é ajudado pelo Sargento Ferrell Bartolome, um veterano de muitas batalhas contra os mimics – e que curiosamente é brasileiro – e por Rita Vrataski, a Full Metal Bitch.

O livro é muito bom e tem batalhas sensacionais. Apesar de narrar uma guerra contra alienígenas, a forma como são descritos o relacionamento entre os soldados e as batalhas é bem realista. A história nos passa algo próximo ao que deve ser lutar em uma guerra e perder companheiros em combate. A explicação do loop temporal em que o soldado Keiji Kiriya está preso e a origem e dos mimics são bem criadas e fundamentais no desenvolvimento da trama. O desfecho é arrasador.

Gostei muito da Rita Vrataski/Full Metal Bitch e de sua opção, em meio de uma guerra com armaduras tecnológicas de última geração, pelo uso do milenar machado e sua justificativa bem sensata para tal. Esta personagem rouba a cena!

O livro foi adaptado para o cinema americano sob o nome Edge of Tomorrow (No Limite do Amanhã por aqui), com Tom Cruise no papel principal e Emily Blunt como Rita Vrataski/Full Metal Bitch. Há ainda uma adaptação para mangá desenhada por Takeshi Obata, conhecido pelos desenhos de Hikaru No Go, Death Note e Bakuman, que será lançado ainda este ano no Brasil pela JBC. Também existe uma adaptação horrorosa para os quadrinhos nos Estados Unidos.


5) Old Man’s War, de John Scalzi, 2005

“Eu fiz duas coisas em meu aniversário de setenta e cinco anos. Visitei o túmulo de minha esposa. Então me alistei no exército.”

Com esta fantástica abertura começa o mais recente livro desta lista. Esta é a história de John Perry, que aos 75 anos decide entrar para as Forças de Defesa Colonial em um futuro onde a humanidade está se espalhando entre vários sistemas estelares na galáxia. Mas em seu caminho há várias espécies alienígenas que não estão dispostas a dividir seu espaço, e há guerra em muitas frentes. A FDC não está interessada em recrutas jovens, ela prefere pessoas experientes dispostas a abandonar suas vidas na Terra, lutar por um período e depois colonizar um planeta distante, sem jamais voltar ao planeta de origem da humanidade. Para isso elas ganham corpos geneticamente alterados e modificados com nanotecnologia que lhes dão força, velocidade e resistência amplificados, para poderem lutar contra as mais diversas raças alienígenas que encontrarão na expansão e defesa das colônias humanas. Todos também possuem um implante neural que funciona como dispositivo de comunicação e computador pessoal, que realiza comunicação diretamente com o cérebro do combatente e serve de tradutor, mapa, controle de armamento entre outros.

Romance de estreia do escritor John Scalzi, Old Man’s War é marcada por um excelente protagonista, com personagens coadjuvantes muito interessantes – muitos dos quais infelizmente morrem – e, principalmente, muito bom humor. Há passagens muito hilárias, com destaque para o período de recrutamento e o Sargento que fica responsável pelo treinamento dos futuros soldados. O livro brinca com nossos preconceitos quando mostra espécies alienígenas de aparência ameaçadora, mas que são superavançados e pacíficos; enquanto outras tem uma aparência amigável mas são inimigos letais. A cada batalha milhares de soldados podem morrer antes mesmo de sequer compreender o que é o inimigo contra o qual estão lutando, como em uma batalha onde uma espécie controlava a forma da água e mata milhares de soldados afogados; ou outra que não passava de um fungo subterrâneo que mata uma colônia inteira com dezenas de milhares de humanos antes que estes pudessem entender o que estava acontecendo. Há também inimigos hilários como os covandu, seres humanoides minúsculos que podem ser mortos simplesmente pisando-se neles.


A série Old Man’s War conta atualmente com cinco livros e segue em The Ghost Brigades, The Last Colony, Zoe's Tale, e The Human Division. Está previsto para 2015 o lançamento do sexto livro, The End of All Things. Há também duas histórias curtas: The Sagan Diary, e After the Coup. Existem planos para uma série de TV no canal SyFy e a Paramount comprou os direitos para uma futura adaptação cinematográfica.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

The Martian, de Andy Weir

Me desculpem Arthur C. Clarke, Kim Stanley Robinson, Robet Zubrin, e outros grandes escritores do gênero – gosto muito de vocês, mesmo –, mas esta é a melhor ficção científica hard sobre Marte já escrita! O novato Andy Weir criou um carismático astronauta que está encalhado em Marte; sozinho, sem comunicação com a Terra e que só pode contar com sua engenhosidade, força de vontade e bom humor para vencer o ambiente hostil de um planeta que pode matá-lo de todas as formas imagináveis. Cada detalhe da história, cada reviravolta na trama e cada solução encontrada está firmemente baseada na realidade. Esta com certeza será uma leitura obrigatória para todos os técnicos, engenheiros e astronautas que estarão envolvidos nas futuras missões tripuladas à Marte.

Andy Weir
O autor Andy Weir é um programador que criou a história despretensiosamente, liberando periodicamente os capítulos em sua página na internet. Depois de vários pedidos de seus leitores ele publicou um ebook na Amazon através da plataforma Kindle Direct Publishing. O ebook foi um sucesso e rapidamente vendeu dezenas de milhares de cópias. Weir foi procurado então por um agente de uma grande editora dos Estados Unidos que republicou o livro de forma profissional nos formatos impresso e digital, e este chegou ao topo da lista dos livros mais vendidos de ficção científica da Amazon, chegando até mesmo a figurar na lista dos mais vendidos do jornal New York Times. Os direitos foram comprados para uma adaptação cinematográfica que está sendo produzida diretor Ridley Scott, com Matt Damon no papel principal. A previsão de estreia é para novembro de 2015.

Capa da edição brasileira
Na história o botânico e engenheiro Mark Watney é um astronauta da terceira missão tripulada à Marte, que é abortada após uma colossal tempestade de areia que destrói a antena de comunicação do módulo de habitação e atravessa um pedaço de metal em seu corpo. Seus companheiros decolam às pressas achando que ele está morto, e ele fica ferido, com suprimentos limitados e sem ter como se comunicar com a Terra para avisar que está vivo, em um ambiente totalmente hostil à qualquer forma de vida. Marte tem uma temperatura de dezenas de graus abaixo de zero, atmosfera equivalente a menos de 1% da atmosfera terrestre (quase vácuo) e com água quase inexistente; o planeta é mais gelado que a Antártida e mais seco que o deserto mais estéril aqui da Terra; qualquer ser vivo exposto à estas condições morreria instantaneamente fora de um ambiente pressurizado. Mesmo contra todos estes obstáculos, Mark Watney não desiste e segue em uma obstinada luta pela sobrevivência.

Sua única esperança é sobreviver até a chegada da próxima missão tripulada, prevista para chegar quase quatro anos depois. Ele então contabiliza minuciosamente seus suprimentos, como água, alimentos, etc e traça um plano para viver até lá. Cada obstáculo apresentado pelo planeta vermelho é superado com soluções bem engenhosas, como sua ideia de criar uma plantação no módulo de habitação utilizando uma mistura de solo terrestre, solo marciano e suas próprias fezes, que servem como adubo para cultivar batatas e estender seu suprimento de alimentos – apesar do cheiro horrível!  Eventualmente a Nasa descobre que ele está vivo ao detectar suas atividades na superfície, e um ousado plano é iniciado para trazê-lo de volta. Mas Marte é muito mais perigoso que Watney e os cientistas da Nasa imaginam, e muitos imprevistos mortais surgirão.

O livro é de tirar o fôlego. Mark Watney é como um MacGyver do espaço, adaptando o que tem à sua disposição para inventar uma solução criativa para cada desafio que Marte o faz encarar. A história tem muito suspense a cada página; o azarado astronauta tem que lutar o tempo todo para sobreviver aos perigos do planeta e às falhas nos equipamentos em momentos cruciais. Cada solução é genial e firmemente calcada na realidade; as descrições da missão e seus equipamentos são impressionantes. Com o sucesso das primeiras versões do livro, Andy Weir recebeu sugestões de alguns cientistas e técnicos que o ajudaram a corrigir algumas falhas técnicas na história.

A história lembra muito o épica resgate dos astronautas da Apollo 13 na década de 70, quando parte desta nave foi danificada em uma explosão quando viajava à Lua. Nesta história real a tripulação, engenheiros e técnicos da Nasa somaram forças e também criaram soluções engenhosas para trazer todos vivos para a Terra, em um evento que causou comoção mundial.

O livro foi traduzido para o português e lançado pela editora Arqueiro em outubro deste ano com o horroroso título “Perdido em Marte”. A capa é a mesma da edição americana. Torço outros livros do gênero como Red Mars, de Kim Stanley Robinson, ou First Landing, de Robert Zubrin, também sejam lançados por aqui.

Não perca por nada este livro!


Website do autor:

Página onde o autor comenta a criação do Livro:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Censura de biografias e as liberdades de expressão e informação

Em 2006 o jornalista Paulo Cesar de Araújo publicou o livro “Roberto Carlos em detalhes”, sucesso de público e crítica que foi censurado e retirado das prateleiras após uma ação criminal e outra cível propostas no judiciário pelo cantor. Desde então o assunto da censura às biografias tem sido muito debatido no país. Atualmente há um projetode lei que se arrasta no Congresso Nacional, propondo uma mudança no Código Civil, que atualmente permite a censura à um escritor que escreva uma obra sobre a vida de uma pessoa pública, que pode ser processado civil e criminalmente por ela ou seus herdeiros – oposto ao que ocorre em qualquer país democrático que valha a menção, onde biografias não autorizadas são muito comuns apesar de aborrecerem muita gente. O caso mostra que no Brasil muita gente boa ainda não tolera, não se acostumou ou não sabe o que são a liberdade de expressão e a liberdade de informação.

Capa do livro censurado "Roberto Carlos
em detalhes", que iniciou o maior debate
sobre censura do Brasil
A liberdade de expressão é um dos direitos mais caros a uma democracia e está prevista na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e basicamente é a possibilidade de se expressar sobre qualquer assunto sem a ameaça de represálias. A liberdade de informação é outra que também é prevista nesta declaração e é o direito que qualquer um tem de ter acesso e divulgar qualquer informação de interesse público – por mais bizarra, idiota, inútil ou excêntrica que seja. Elas são vias de mão dupla, e o que muita gente não entende é que elas permitem que se diga e se tenha acesso àquelas coisas com as quais não concordamos e nos deixa furiosos também. Liberdade de expressão e informação não são só os direitos de dizer e ouvir coisas belas e legais que todo mundo – incluindo você – concorda e elogia: o direito de um às vezes é a perda do direito de outro, e para que possamos criticar e nos informar, também temos que nos permitir ser criticados e expostos.

Há um aparente conflito entre a liberdade de expressão e a liberdade de informação com outro direito sagrado: o direito à privacidade. Aqueles que defendem a censura às biografias alegam que elas violam a privacidade quando expõem momentos dolorosos e a intimidade destas pessoas ao público, e que podem provocar danos à imagem do biografado ou de seus familiares e amigos. Mas as coisas não são assim tão simples. Notícias veiculadas na mídia sobre a morte, divórcio, ou doença de uma pessoa pública, ou um crime praticado por ela, também expõem a dor, a intimidade e provocam danos à imagem desta pessoa e de sua família e amigos; o jornalista que publica esta notícia deveria ser censurado e processado então? Pessoas públicas já sofrem várias restrições em sua privacidade devido ao seu próprio modo de vida – a maioria até estimula e lucra com isso – e um biógrafo não revelará muito mais do já é público e notório, e que elas mesmas já revelam diariamente nos meios de comunicação.

O famigerado grupo "Procure Saber"reunido com membros do
Congresso Nacional. O grupo defende a censura prévia de biografias

É claro que a liberdade de expressão não é autorização para a calúnia, injúria ou difamação. Qualquer um que se sentir ofendido tem o direito a procurar o judiciário – favor não confundir o termo com justiça. Aí então vem a alegação de que quando o estrago a uma reputação já está feito, não há volta, e que um processo no judiciário pode se arrastar por anos e não ter a condenação dos culpados. Mas se o poder judiciário brasileiro é incompetente, lento, ineficaz e injusto, este é um outro problema bem diferente; o direito à liberdade de expressão e o direito à informação não podem ser censurados por causa dele. É como querer proibir as pessoas de dirigir automóveis para evitar que aconteçam os acidentes de trânsito, ou proibir a venda de facas para evitar assassinatos; o mau uso não pode servir de justificativa para proibir até mesmo o bom uso.

E finalmente há também o interessante argumento de que os biógrafos ganham dinheiro com suas biografias. É verdade e concordo. Assim como o padre e o pastor são pagos pelas igrejas para celebrar as missas e os cultos, os pintores vendem seus quadros, os cozinheiros são pagos por sua comida, os cantores vendem CDs e DVDs, e todo trabalhador é pago por seu trabalho e têm que manter as contas em dia; o escritor é pago por todo o trabalho de pesquisar e escrever com a venda dos seus livros. Não sabia? O altruísmo e o trabalho voluntário existem, mas seres vivos tem que se alimentar diariamente para sobreviver, afinal, dizem por aí que saco vazio não para em pé. Mas sejamos sinceros: no Brasil há alguém – com exceção do Paulo Coelho – que fica milionário vendendo livros?

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Alguns links interessantes sobre censura de biografias no Brasil:








segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Arte: Conversas imaginárias com minha mãe, de Juamjo Sáez

A Arte: Conversas imaginárias com minha mãe (WMF Martins Fontes, 2013), é um livro sobre arte escrito e ilustrado pelo espanhol Juamjo Sáez. Através de um diálogo fictício entre o autor e sua mãe, ele tenta explicar a arte para o público leigo, destacando grandes artistas do século XX, como Pablo Picasso, Andy Warhol, Salvador Dalí, Alexander Calder, Antoni Tàpies, Eduardo Chillida, Joan Miró, entre outros.

Se você não entende nada de arte (como eu) e deseja começar a compreender o deslumbramento causado por todos aqueles montes de rabiscos e manchas de tinta; aquelas pilhas de metal retorcido; ou aquelas esculturas geométricas em posições impossíveis – que às vezes custam milhões de dólares! –, este livro é um bom começo. O livro é ilustrado em um estilo que é algo entre o infantil e o cartunesco, intencionalmente amador; o texto são garranchos que mantém os erros ocorridos durante a escrita com rabiscos por cima, dando a aparência de um rascunho.

Juamjo Sáez
O livro é bem divertido e mostra que para admirar a arte – e fazer arte também – não é preciso ser um especialista, nem ter uma ampla bagagem cultural. Apesar do conhecimento ajudar, ele não é estritamente necessário para despertar a emoção – ou perplexidade – diante de um belo quadro ou escultura. Para fazer arte precisamos apenas de criatividade, sensibilidade e intuição, coisas que fazem parte de todos os seres humanos e que não aprendemos na escola ou universidade. Mas apesar de defender a liberdade artística e a criatividade, o autor também faz uma crítica bem humorada ao rumo que a arte vem por vezes tomando: um vale-tudo em que o dedo do artista prestigiado a apontar qualquer bizarrice é o que define algo como arte.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

O Coração das Trevas, de Joseph Conrad

O Coração das Trevas (Heart of Darkness, 1899) é o livro mais famoso e perturbador do escritor Joseph Conrad (1857-1924), autor nascido na Polônia mas estabelecido na Inglaterra. O livro é considerado uma das maiores obras da literatura ocidental do século XX – apesar de ter sido publicado pela primeira vez em 1899 na revista literária Maga – e a história ficou mundialmente famosa por ter inspirado o filme Apocalypse Now, do grande cineasta Francis Ford Coppola. É uma obra quase autobiográfica onde Conrad faz uma dura crítica ao imperialismo.

Joseph Conrad foi testemunha dos horrores do imperialismo: viu sua Polônia natal ser ocupada pela Rússia e trabalhou no Congo como Capitão de um navio a vapor. Desta última experiência veio a inspiração para escrever O Coração das Trevas. Assim como o protagonista, ele também trabalhou para uma empresa Belga e comandou um navio a vapor no Congo – na época uma propriedade do Leopoldo II da Bélgica. Seu navio foi avariado e ele também adentrou o Rio Congo em direção ao posto mais longínquo da companhia rio abaixo; retornando com o administrador Georges-Antonie Klein, que morreu doente no retorno.

Joseph Conrad
O livro começa como uma narrativa em primeira pessoa em uma tarde em um estuário no Rio Tâmisa, em Londres, onde vários marinheiros estão passando o tempo escutando a narrativa de um aventureiro chamado Charles Marlow. Começa então a narrativa principal, contada por Marlow, sobre seu emprego em uma companhia belga de comércio e sua aventura comandando um navio fluvial a vapor que transportava marfim por um grande rio na África Colonial. No caminho ele ouve falar do lendário Sr. Kurtz, um administrador que comanda o posto mais avançado da companhia rio abaixo. No caminho ele testemunha o tratamento brutal dado aos nativos negros; o brutal desequilíbrio de forças entre colonizadores e nativos quando vê um navio de guerra francês bombardeando uma aldeia; e todo o sangue e o esforço realizado naquele local distante e isolado da civilização com o único intuito de explorar o marfim. No início ele acredita no colonialismo como uma forma de levar a civilização aos povos bárbaros e atrasados, mas conforme vai avançando mais no coração negro da floresta (o “coração das trevas” do título) em busca do Sr. Kurtz, ele descobre os horrores que se escondem por trás do processo civilizatório. O Sr. Kurtz é adorado como um deus pelos nativos e em seu isolamento prolongado extrapolou todos os limites da barbárie, mostrando que quando ultrapassamos as fronteiras psicológicas da civilização adentramos no território da insanidade.

Apesar de inspirado em O Coração das Trevas, a história do filme Apocalypse Now (1979) tem poucas semelhanças com o livro de Joseph Conrad – apesar da ambientação e do clima de insanidade serem idênticos. O filme de Francis Ford Coppola se passa na Guerra do Vietnã, onde o Capitão do exército americano Benjamin L. Willard (Martin Sheen) recebe a missão de adentrar o Rio Nung em plena guerra para matar o desertor Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando), que enlouqueceu e vive entre nativos nos confins da floresta tropical do Camboja. O filme tem um elenco estelar contando, além de Martin Sheen e Marlon Brando, com nomes como Harrison Ford, Robert Duvall, Laurence Fishburne e Dennis Hopper. Como cenas inesquecíveis destaco o início, em que o personagem de Martin Sheen pira no interior de um apartamento em Saigon ao som da canção The End, da banda The Doors, e a cena do ataque dos helicópteros a uma vila vietnamita ao som da Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner.

Marlon Brando irreconhecível como Coronel Kurtz em Apocalypse Now.

Uma história universal e atualíssima nestes tempos em que testemunhamos a intervenção das grandes potências em países do Oriente Médio e África, sob o pretexto de levar a democracia e combater o terrorismo; e a anexação de territórios por grandes potências, como ocorreu no caso da Criméia pela Rússia. O horror! O horror!, como diz o Sr. Kurtz no livro.

É uma leitura curta mas que exige muita atenção e concentração para não perder nenhuma das sutilezas do texto. A edição que li é a edição bilíngue da Editora Landmark, que ainda pode ser encontrada nas livrarias, mas há também várias outras boas versões por outras editoras.

“Entretanto, como vocês podem perceber, eu não me juntei a Kurtz nem ali e nem depois. Eu permaneci a sonhar o pesadelo até o final e a demonstrar sempre a minha lealdade para com Kurtz. Destino. Meu destino! A vida é uma coisa engraçada: um arranjo misterioso de lógica sem misericórdia para um propósito fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo... que chega tarde demais... um amontoado de arrependimentos inextinguíveis. Eu tenho lutado contra a morte. É a competição mais entediante que vocês podem imaginar. Ela acontece numa mediocridade intangível, com nada sob os nossos pés, com nada entorno, sem espectadores, sem um clamor, sem glória, sem o grande desejo de vitória, sem o grande temor da derrota, dentro de uma atmosfera doentia de cepticismo morno, sem se acreditar no próprio direito e ainda muito menos quanto ao direito do adversário. Se for aquela a imagem da derradeira sabedoria, então a vida é um enigma maior do que alguns de nós poderiam sequer supor que seja. [...]”